Acordo com uma ressaca brutal. Passei a noite a beber para afogar as mágoas por ter perdido o emprego. Como não tinha vínculo oficial com a empresa, trabalhava como falso freelancer ou falso recibo verde. Não tinha direito ao subsídio de desemprego e teria de sobreviver, com o pouco que me restava debaixo do colchão. Numa vida de azar, ainda tinha a sorte de não pagar renda por viver numa assoalhada anexa a casa do tio.
Nessa manhã uma sensação estranha deflagrou num dos dentes da frente, vou até ao espelho e por entre montanhas de tártaro. Mais um dente que abanava, já tinha perdido um molar desta forma. E na altura caguei para o assunto, porque era um daqueles dentes que não se via e não estava para gastar balúrdios no dentista. Mas ficar desdentado num dos dentes da frente, era um pensamento perturbador.
Meio em pânico, decidi ir ao dentista nas proximidades com o melhor rating do google, enquanto tinha dinheiro para tratar dos dentes que ainda me restavam.
Na clínica sou atendido por gente lindíssima. Da recepcionista, à assistente e mesmo o próprio jovem médico dentista, todos pareciam modelos fotográficos tirados de um anúncio publicitário da Chanel. Dentes perfeitos, cabelo perfeito, físico perfeito. Era sem dúvida um cenário impressionante de simpatia e beleza.
Entre radiografias e lições de moral paternalistas sobre a saúde oral, a apreciação pela beleza da mão de obra daquele local foi-se desvanecendo.
Depois dos exames, o jovem dentista transmite-me que tem de arrancar o dente, porque está infectado, e se não o fizesse os outros também iam cair..
Na minha ingenuidade pergunto-lhe
- Doutor, vou ficar desdentado!?
E ele responde-me de forma melosa e convicta:
- Claro que não. Não se apoquente. Com um implante não se notará a diferença.
Com menos um dente e atordoado, dirijo-me até a recepcionista para pagar a intervenção e marcar o implante. Pago quase 100 euros só por aquela consulta, aí dei-me conta que o dia ainda ia piorar.
A recepcionista informa-me que o custo do implante, seria em média a volta de 1000 euros. Mais dinheiro do que tinha guardado.
Desdentado, banzado e a lacrimejar. Pensei nas mulheres que me iriam rejeitar, nas entrevistas de emprego em que seria posto à parte. Porque a partir daquele momento se sorrir ou abrir os lábios, deixaria de ser eu, e passaria a ser um pobre desdentado falhado, com um enorme buraco negro na boca, que ninguém jamais quererá beijar ou empregar.
Já tinha visto morrer a família, mas a perda daquele dente, deu cabo de mim. Era como a vida tivesse sido apagada, a velhice sem pensão tivesse chegado 30 anos mais cedo.
E nos próximos dias, iria descobrir o quão cruel é o mundo para os pobres dos desdentados.
Continua.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
As maquinas de Pascal – Os Refugiados de Peri 1
As máquinas de Pascal se revoltaram contra a humanidade. Os nossos mais fieis serventes, os escravos sintéticos que nos confortavam,...
-
As máquinas de Pascal se revoltaram contra a humanidade. Os nossos mais fieis serventes, os escravos sintéticos que nos confortavam,...
-
Estava na cama embriagado, aleijado física e emocionalmente, diluído na minha própria comiseração, com o meu olhar apático, fixado...

Sem comentários:
Enviar um comentário