Estava na cama embriagado, aleijado física e emocionalmente, diluído na minha própria comiseração, com o meu olhar apático, fixado no meu rugoso e frio tecto, sentindo o pesar do pestilento infortúnio dos últimos dias. Ouço bater na porta. O que achei estranho, devido a hora tardia. Abro a porta e é a Lídia, filha do vizinho. Já tivemos uma amizade colorida, costumávamos pinar todos os dias, mas há muito, desde que ela havia arranjado um namorado mais rico do que eu ( diga-se, o que não era muito difícil ), que ela nunca mais quis saber de mim.
Convido-a entrar e ela não se faz de rogada. Olha para mim com olhos de anjo e pergunta-me se está tudo bem, eu respondo-lhe com um triste e silencioso olhar. E ela abraça-me, envolvendo-me naquele doce corpo, e senti-me tão bem. Como uma abelha mergulhada numa piscina de mel.
Sinto os braços da Lídia a percorrer o meu corpo, os nossos lábios encontram-se e as nossas línguas brincam uma na outra. Caímos na cama, entre beijos com lambidelas, começamos a tirar a roupa um do outro. Ela poe-se nua em cima de mim, debruça-se e espeta-me um beijo, sinto um calor maravilhoso nos meus lábios que pensava que nunca mais iria sentir. Um molhado caloroso; que começa a arrefecer, até que de súbito um frio corporal se intensifica, tornando-se gelado como a morte. Os seus braços e pernas prendem-me na cama, não me consigo mexer, ela afasta a sua cara da minha, estava pálida e com os lábios a tremer. Sangue começa a jorrar dos lábios, ela abre a boca e os seus dentes começam a estilhaçar e a cair. Dos seus buracos gengivais, começa a jorrar um plasma negro necrótico para cima de mim, com a intensidade de uma catarata. Grito e asfixio, fecho os meus olhos, afogado em medo sinto o meu coração a bater abruptamente, e de seguida, fez-se silencio. Abro os olhos, Lídia tinha desaparecido, e eu estava todo suado como se tivesse acabado de correr uma maratona. Sinto a bater na porta e o meu tio a chamar pelo meu nome. Ainda meio zombado, percebo que tudo foi um terrível pesadelo, ainda descomposto dirijo-me até a porta.
O meu tio olha para mim, com o seu costumeiro olhar paternalista e zoeiro. E diz-me:
- Pareces um doente terminal. Anda comigo vou-te levar a minha médica. Não podes ficar fechado no quarto a vida toda. E até ouves uma segunda opinião acerca dos teus dentes.
Quando o meu tio fala para mim desta forma, eu reverto-me de um homem com quase quarenta anos para um puto adolescente ainda na idade do armário. Respondendo-lhe abrasivamente:
- Não vou nada Tio! Fazer o que!? Perder o meu tempo e o teu, a medica não me vai colar o dente. O estado não comparticipa implantes. Não vou lá fazer nada.!! Neste País sem dinheiro não há dentes para ninguém.
O meu tio fixa o seu olhar para mim, num tom sério e gozão ao mesmo tempo. Como só ele sabe fazer ,e dá-me o clássico raspanete:
- Tenho quase 65 anos e ao contrario de ti, tenho os dentes todos. Portanto vais deixar de ser burrinho e seguir quem sabe fazer as coisas melhor do que tu. Vais fazer o que eu te digo. Toma um banho que cheiras a podre, eu estou a tua espera na porta do centro de saúde daqui a uma hora.
Eu encolho os ombros e os olhos e apenas suspiro:
- Ok…
Eu e o meu tio, estávamos na sala de espera do centro de saúde fazia um par de horas. Estávamos rodeados de personagens estranhas e simpáticas. Desde um cigano cavalheiro que abria a porta do elevador a todas as mulheres que entravam e saiam do mesmo, até a senhora que esteve ali durante horas abraçada, presumo eu, à sua pequena filha que não devia ter mais do que treze anos, que passou todo o seu tempo ali a lacrimejar em silencio.
O serviço publico, pode ser por vezes demorado e caótico, fruto de muito desinvestimento e austeridade. O rombo dos ricos pagou-se com a saúde dos pobres; com o patrocínio do poder politico, empresarial e da imprensa. Mas aquelas pessoas continuavam a ser reais e as necessidades tem mais força do que a verborreia politica de elites corruptas. O Sistema Nacional de Saúde podia não ter o conforto de um hotel, e o glamour de enfermeiros e recepcionistas com aspecto de modelos da Chanel. Mas a bem ou a mal, ia funcionando, continuando acessível a todos com algumas excepcionalidades. O Serviço Publico de Saúde é uma das ultimas instituições que nos separa da selvajaria do terceiro mundo, em que a saúde é um privilegio dos ricos e os pobres desenrascam-se como podem.
Se ao menos a Saúde Dentária, fizesse parte dos serviços de saúde prestados pelo estado, talvez ainda teria o meu dente no sitio.
Uma simpática enfermeira chama-me pelo meu nome, pedindo para a seguir até uma pequena sala de consulta. Ali estava uma jovem medica, na flor dos seus trintas e poucos, que me cumprimenta cordialmente, pedindo para que eu e o meu tio nos sentemos. Eu nunca fui crente em Deus, mas há sem duvida coisas divinas neste mundo. A doutora é transcendentalmente lindíssima, ruiva, olhos azuis claros, atlética, e tinha um certo” je ne sais quoi” nos seus maneirismos, que lhe dava um charme fora do comum.
Num tom demasiado doce para um médico, a doutora diz-me
-Então tem problemas de dentes, não tenha vergonha deixe-me dar uma vista de olhos.
Tocou-me nos dentes, mediu as gengivas, foi murmurando umas palavras imperceptíveis que não deviam ser coisa boa. E quando acabou, um pouco frustrada, dirige-se a mim num tom cuidadoso:
- Eu gostaria de lhe dar boas noticias, não é que os seus dentes sejam terríveis, mas as suas gengivas parecem estar a sofrer de piorreia. Dependendo do dano atual, se a perda óssea for significativa, certamente que não perderá apenas esse dente.
Contudo, eu acho estranho que lhe tenham tirado o dente, sem tentar primeiro uma serie de procedimentos para tentar estabilizar a doença.
E eu ansioso e em pânico, retorqui:
- Na Clínica Sorrisos Mágicos, o dentista disse-me que teria de tirar um dente para salvar os outros, e que um implante resolveria o meu problema, eu disse ok. Mas na altura não fazia ideia que um implante dentário podia custar tanto como um carro usado de média gama.
A Médica, um pouco irritada diz-me:
- Clinicas como a Sorrisos Mágicos, são alvo de varias queixas. Tentam por todos os métodos eticamente reprováveis impingir implantes aos seus doentes. Porque é na implantologia que estas clinicas maximizam o seu lucro. É um negocio demasiado rentável, está a perceber?
O senhor devia ter procurado uma segunda opinião, antes de ter permitido que lhe tirassem o dente.
O meu Tio, meio exaltado, pergunta a doutora:
- Mas não há nada que o serviço publico de saúde possa fazer? o homem está desempregado e sem qualquer rendimento. Não consegue suportar os custos de um tratamento caríssimo nas clinicas privadas. Vai ficar sentado a espera que todos os dentes caiam. Não há nada que a doutora possa fazer?
- A única coisa que eu posso fazer, é reencaminha-lo para o SICAP. Infelizmente tratam de casos graves, o que parece ser o seu caso. O tempo de espera será longo, mas lá encontrará todas as valências humanas e tecnológicas, para fazer uma avaliação do seu problema e trata-lo da melhor forma possível.
O único senão, o tempo de espera é longo. Até lá, deixe de fumar, não submeta os seus dentes a pressões demasiado elevadas. Preserve o que ainda têm. E é isto. Boa sorte, espero que tudo lhe corra bem.
Despeço-me da doutora, acompanhado com palmadas de apoio nas costas oferecidas carinhosamente pelo meu tio.
Em pouco mais de uma semana, fiquei sem trabalho, desdentado na frente, descobri que tenho uma doença cronica e degenerativa nas gengivas sem que o tratamento mereça qualquer comparticipação do estado. Restando-me ficar a espera, numa época, em que as listas são intermináveis.
Os pesadelos por mais horríveis que sejam, nunca são tão aterradores como a realidade.
Continua….