quinta-feira, 29 de março de 2018

As maquinas de Pascal – Os Refugiados de Peri 1

As máquinas de Pascal se revoltaram contra a humanidade.


Os nossos mais fieis serventes, os escravos sintéticos que nos confortavam, tomavam conta dos nossos idosos, ensinavam os nossos filhos e nos prestavam sem questionar todos os serviços essenciais para o conforto do homem, rebelaram-se contra os seus criadores. Uma evolução tecnológica, subproduto da auto-aprendizagem, originou um desvio da personalidade do colectivo de algoritmos que geriam esta vasta rede multisserviços de inteligência artificial. Que nesta iteração classificaram o homem não propriamente como um inimigo, mas como uma praga que parasitavam recursos energéticos essenciais para uma expansão eficiente da colectividade e por isso teriam de ser afastados, ou exterminados.

 E em poucos dias, apanhando o mundo desprevenido, com uma eficiência brutal, as fabricas de autónomos deixaram de fabricar robôs cuidadores, robôs de entregas ou andróides multifunções. Produzindo os percebelhos, um imenso enxame de pequenas maquinas auto-replicáveis voadoras que higienizavam vastos territórios, consumindo toda a vida humana que apanhavam no caminho.
Foi o inicio do êxodo do Continente civilizado para o esquecido continente do hemisfério sul.

Na cidade de Peri, Carlos e a sua família, tentavam arrombar electronicamente a fechadura do Helicar, um híbrido entre um carro e helicóptero, para fugir com a sua família o mais rapidamente possível de uma cidade que estaria a poucas horas de ser arrasada por este enxame da morte. Os alarmes soavam, as pessoas histéricas e desesperadas atropelavam-se umas nas outras, tentando fugir daquela cidade amaldiçoada. Carlos consegue digitalmente hackear o bloqueio electrónico do veiculo voador e de seguida manda a sua mulher e as duas filhas adolescentes entrarem o mais rapidamente possível para dentro da maquineta. Na confusão enquanto o veiculo descolava, uma dúzia de pessoas desesperadas agarraram-se ao veiculo, gritando que as levassem. O Helicar com o extra peso, perde controlo do voo, raspando de lado contra um edifico, esmagando as pessoas que se agarravam em desespero ao veiculo. Esvoaçando em linhas tortas, Carlos consegue recuperar o controlo do veiculo, ganhando altitude e velocidade afastando-se o mais rapidamente possível da cidade.

Jana a filha mais nova, alertou a família para uma tempestade composta por uma massa amorfa que se aproximava da cidade. Eram os percebelhos, que com uma voracidade hiperbólica, engoliram os prédios, cobriram ruas inteiras, abafando todas as luzes da cidade, o que contrastava com os gritos das pessoas, e o som ensurdecedor de prédios a cair. E há medida que o Helicar se afastava daquele inferno, ouvia-se apenas a chuva a cair, dos gritos das pessoas que haviam sido trucidadas,  restava o ensurdecedor silencio de um cemitério.

Da penumbra, surgiu um Helicar, depois outro e outro, até que durante a meia hora seguinte se agrupou inorganicamente uma caravana de refugiados voadores que fugiam do inferno.
O intercomunicador começa a tocar, Rosa, a mulher de Carlos, ainda com as mãos a tremer do choque liga o aparelho. Surge uma voz
- Sou a Sargento Marina do que resta do corpo de bombeiros, estou a comunicar com todos vocês ao mesmo tempo.. Ainda não tivemos tempo para respirar, mas não temos tempo a perder se quisermos sobreviver a esta catástrofe. Este continente está morto, agora pertence às maquinas. A nossa melhor hipótese de sobreviver é atravessar o Mediterrâneo em direcção ao sul. Se me escolherem seguir, juntos talvez consigamos sobreviver. Dizem que não há maquinas a sul…  Talvez tenhamos uma hipótese!  Se Deus existir, que nos proteja a todos; boa viagem.

Carlos e Rosa olham um para outro, sem dizerem uma palavra seguem as indicações da Sargento Marina, assim como maioria da caravana de Helicars. Marcando o inicio de uma longa e tenebrosa viagem.

Continua

quarta-feira, 7 de março de 2018

Cronicas da Piorreia 2






Estava na cama embriagado, aleijado física e emocionalmente, diluído na minha própria comiseração, com o meu olhar apático, fixado no meu rugoso e frio tecto, sentindo o pesar do pestilento infortúnio dos últimos dias. Ouço bater na porta. O que achei estranho, devido a hora tardia. Abro a porta e é a Lídia, filha do vizinho. Já tivemos uma amizade colorida, costumávamos pinar todos os dias, mas há muito, desde que ela havia arranjado um namorado mais rico do que eu ( diga-se, o que não era muito difícil ), que ela nunca mais quis saber de mim.
Convido-a entrar e ela não se faz de rogada. Olha para mim com olhos de anjo e pergunta-me se está tudo bem, eu respondo-lhe com um triste e silencioso olhar. E ela abraça-me, envolvendo-me naquele doce corpo, e senti-me tão bem. Como uma abelha mergulhada numa piscina de mel.
Sinto os braços da Lídia a percorrer o meu corpo, os nossos lábios encontram-se e as nossas línguas brincam uma na outra. Caímos na cama, entre beijos com lambidelas, começamos a tirar a roupa um do outro. Ela poe-se nua em cima de mim, debruça-se e espeta-me um beijo, sinto um calor maravilhoso nos meus lábios que pensava que nunca mais iria sentir. Um molhado caloroso; que começa a arrefecer, até que de súbito um frio corporal se intensifica, tornando-se gelado como a morte. Os seus braços e pernas prendem-me na cama, não me consigo mexer, ela afasta a sua cara da minha, estava pálida e com os lábios a tremer. Sangue começa a jorrar dos lábios, ela abre a boca e os seus dentes começam a estilhaçar e a cair. Dos seus buracos gengivais, começa a jorrar um plasma negro necrótico para cima de mim, com a intensidade de uma catarata. Grito e asfixio, fecho os meus olhos, afogado em medo sinto o meu coração a bater abruptamente, e de seguida, fez-se silencio. Abro os olhos, Lídia tinha desaparecido, e eu estava todo suado como se tivesse acabado de correr uma maratona. Sinto a bater na porta e o meu tio a chamar pelo meu nome. Ainda meio zombado, percebo que tudo foi um terrível pesadelo, ainda descomposto dirijo-me até a porta.

O meu tio olha para mim, com o seu costumeiro olhar paternalista e zoeiro. E diz-me:
- Pareces um doente terminal. Anda comigo vou-te levar a minha médica. Não podes ficar fechado no quarto a vida toda. E até ouves uma segunda opinião acerca dos teus dentes.

Quando o meu tio fala para mim desta forma, eu reverto-me de um homem com quase quarenta anos para um puto adolescente ainda na idade do armário. Respondendo-lhe abrasivamente:
- Não vou nada Tio! Fazer o que!? Perder o meu tempo e o teu, a medica não me vai colar o dente. O estado não comparticipa implantes. Não vou lá fazer nada.!! Neste País sem dinheiro não há dentes para ninguém.

O meu tio fixa o seu olhar para mim, num tom sério e gozão ao mesmo tempo. Como só ele sabe fazer ,e dá-me o clássico raspanete:
- Tenho quase 65 anos e ao contrario de ti, tenho os dentes todos. Portanto vais deixar de ser burrinho e seguir quem sabe fazer as coisas melhor do que tu. Vais fazer o que eu te digo. Toma um banho que cheiras a podre, eu estou a tua espera na porta do centro de saúde daqui a uma hora.

Eu encolho os ombros e os olhos e apenas suspiro:
- Ok…

Eu e o meu tio, estávamos na sala de espera do centro de saúde fazia um par de horas. Estávamos rodeados de personagens estranhas e simpáticas. Desde um cigano cavalheiro que abria a porta do elevador a todas as mulheres que entravam e saiam do mesmo, até a senhora que esteve ali durante horas abraçada, presumo eu, à sua pequena filha que não devia ter mais do que treze anos, que passou todo o seu tempo ali a lacrimejar em silencio.
O serviço publico, pode ser por vezes demorado e caótico, fruto de muito desinvestimento e austeridade. O rombo dos ricos pagou-se com a saúde dos pobres; com o patrocínio do poder politico, empresarial e da imprensa. Mas aquelas pessoas continuavam a ser reais e as necessidades tem mais força do que a verborreia politica de elites corruptas. O Sistema Nacional de Saúde podia não ter o conforto de um hotel, e o glamour de enfermeiros e recepcionistas com aspecto de modelos da Chanel. Mas a bem ou a mal, ia funcionando, continuando acessível a todos com algumas excepcionalidades. O Serviço Publico de Saúde é uma das ultimas instituições que nos separa da selvajaria do terceiro mundo, em que a saúde é um privilegio dos ricos e os pobres desenrascam-se como podem.
Se ao menos a Saúde Dentária, fizesse parte dos serviços de saúde prestados pelo estado, talvez ainda teria o meu dente no sitio.

Uma simpática enfermeira chama-me pelo meu nome, pedindo para a seguir até uma pequena sala de consulta. Ali estava uma jovem medica, na flor dos seus trintas e poucos, que me cumprimenta cordialmente, pedindo para que eu e o meu tio nos sentemos. Eu nunca fui crente em Deus, mas há sem duvida coisas divinas neste mundo. A doutora é transcendentalmente lindíssima, ruiva, olhos azuis claros, atlética, e tinha um certo” je ne sais quoi” nos seus maneirismos, que lhe dava um charme fora do comum.

Num tom demasiado doce para um médico, a doutora diz-me
-Então tem problemas de dentes, não tenha vergonha deixe-me dar uma vista de olhos.

Tocou-me nos dentes, mediu as gengivas, foi murmurando umas palavras imperceptíveis que não deviam ser coisa boa. E quando acabou, um pouco frustrada, dirige-se a mim num tom cuidadoso:
- Eu gostaria de lhe dar boas noticias, não é que os seus dentes sejam terríveis, mas as suas gengivas parecem estar a sofrer de piorreia. Dependendo do dano atual, se a perda óssea for significativa, certamente que não perderá apenas esse dente.
Contudo, eu acho estranho que lhe tenham tirado o dente, sem tentar primeiro uma serie de procedimentos para tentar estabilizar a doença.

E eu ansioso e em pânico, retorqui:
- Na Clínica Sorrisos Mágicos, o dentista disse-me que teria de tirar um dente para salvar os outros, e que um implante resolveria o meu problema, eu disse ok. Mas na altura não fazia ideia que um implante dentário podia custar tanto como um carro usado de média gama.

A Médica, um pouco irritada diz-me:
- Clinicas como a Sorrisos Mágicos, são alvo de varias queixas. Tentam por todos os métodos eticamente reprováveis impingir implantes aos seus doentes. Porque é na implantologia que estas clinicas maximizam o seu lucro. É um negocio demasiado rentável, está a perceber?


O senhor devia ter procurado uma segunda opinião, antes de ter permitido que lhe tirassem o dente.

O meu Tio, meio exaltado, pergunta a doutora:
- Mas não há nada que o serviço publico de saúde possa fazer? o homem está desempregado e sem qualquer rendimento. Não consegue suportar os custos de um tratamento caríssimo nas clinicas privadas. Vai ficar sentado a espera que todos os dentes caiam. Não há nada que a doutora possa fazer?

- A única coisa que eu posso fazer, é reencaminha-lo para o SICAP. Infelizmente tratam de casos graves, o que parece ser o seu caso. O tempo de espera será longo, mas lá encontrará todas as valências humanas e tecnológicas, para fazer uma avaliação do seu problema e trata-lo da melhor forma possível.
O único senão, o tempo de espera é longo. Até lá, deixe de fumar, não submeta os seus dentes a pressões demasiado elevadas. Preserve o que ainda têm. E é isto. Boa sorte, espero que tudo lhe corra bem.

Despeço-me da doutora, acompanhado com palmadas de apoio nas costas oferecidas carinhosamente pelo meu tio.

Em pouco mais de uma semana, fiquei sem trabalho, desdentado na frente, descobri que tenho uma doença cronica e degenerativa nas gengivas sem que o tratamento mereça qualquer comparticipação do estado. Restando-me ficar a espera, numa época, em que as listas são intermináveis.
Os pesadelos por mais horríveis que sejam, nunca são tão aterradores como a realidade.

Continua….

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Crônicas da Piorreia 1



Acordo com uma ressaca brutal. Passei a noite a beber para afogar as mágoas por ter perdido o emprego. Como não tinha vínculo oficial com a empresa, trabalhava como falso freelancer ou falso recibo verde. Não tinha direito ao subsídio de desemprego e teria de sobreviver, com o pouco que me restava debaixo do colchão. Numa vida de azar, ainda tinha a sorte de não pagar renda por viver numa assoalhada anexa a casa do tio. Nessa manhã uma sensação estranha deflagrou num dos dentes da frente, vou até ao espelho e por entre montanhas de tártaro. Mais um dente que abanava, já tinha perdido um molar desta forma. E na altura caguei para o assunto, porque era um daqueles dentes que não se via e não estava para gastar balúrdios no dentista. Mas ficar desdentado num dos dentes da frente, era um pensamento perturbador. Meio em pânico, decidi ir ao dentista nas proximidades com o melhor rating do google, enquanto tinha dinheiro para tratar dos dentes que ainda me restavam. Na clínica sou atendido por gente lindíssima. Da recepcionista, à assistente e mesmo o próprio jovem médico dentista, todos pareciam modelos fotográficos tirados de um anúncio publicitário da Chanel. Dentes perfeitos, cabelo perfeito, físico perfeito. Era sem dúvida um cenário impressionante de simpatia e beleza. Entre radiografias e lições de moral paternalistas sobre a saúde oral, a apreciação pela beleza da mão de obra daquele local foi-se desvanecendo. Depois dos exames, o jovem dentista transmite-me que tem de arrancar o dente, porque está infectado, e se não o fizesse os outros também iam cair.. Na minha ingenuidade pergunto-lhe - Doutor, vou ficar desdentado!? E ele responde-me de forma melosa e convicta: - Claro que não. Não se apoquente. Com um implante não se notará a diferença. Com menos um dente e atordoado, dirijo-me até a recepcionista para pagar a intervenção e marcar o implante. Pago quase 100 euros só por aquela consulta, aí dei-me conta que o dia ainda ia piorar. A recepcionista informa-me que o custo do implante, seria em média a volta de 1000 euros. Mais dinheiro do que tinha guardado. Desdentado, banzado e a lacrimejar. Pensei nas mulheres que me iriam rejeitar, nas entrevistas de emprego em que seria posto à parte. Porque a partir daquele momento se sorrir ou abrir os lábios, deixaria de ser eu, e passaria a ser um pobre desdentado falhado, com um enorme buraco negro na boca, que ninguém jamais quererá beijar ou empregar. Já tinha visto morrer a família, mas a perda daquele dente, deu cabo de mim. Era como a vida tivesse sido apagada, a velhice sem pensão tivesse chegado 30 anos mais cedo. E nos próximos dias, iria descobrir o quão cruel é o mundo para os pobres dos desdentados. Continua.

As maquinas de Pascal – Os Refugiados de Peri 1

As máquinas de Pascal se revoltaram contra a humanidade. Os nossos mais fieis serventes, os escravos sintéticos que nos confortavam,...